t r e j e i t o s

29 Agosto 2011

23 Agosto 2011

Clarice Lispector





Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.

Clarice Lispector | Água viva, 1973


Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.

Clarice Lispector | A paixão segundo G. H., 1964






11 Junho 2010

Não te analises (...)


Ilustração - Anatoly Fomenko


Não te analises.

Não procures no perfume das flores
a tempestade das raízes.

Nem queiras
desatar o fumo
do carvão das fogueiras.

Ama
com ossos de cinza
e cabelos de chama.

E deixa-te viver
Em rio a correr…


José Gomes Ferreira | Poeta Militante II, 1978

10 Abril 2010

Amigo mêêêêê coração?




bilhete que acompanha o prato pintado com duas rosas pelo avô-pincel e que foi oferecido à iké num dia de aniversário

bem sei



[...] Saía de manhã à procura de novas angras e enseadas para nadar. Nunca havia uma alma nas imediações. [...] Ficava deitado ao sol horas a fio, sem fazer nada, sem pensar em nada. Manter a mente vazia é uma proeza, e para mais uma proeza muito saudável. Estar silencioso o dia inteiro, não ver nenhum jornal, não ouvir rádio, não escutar tagarelices, estar perfeita e completamente ocioso, perfeita e completamente indiferente ao destino do mundo é o mais excelente remédio que um homem pode administrar a si mesmo. A cultura livresca esvai-se gradualmente; os problemas fundem-se e dissolvem-se, os laços são suavemente cortados; pensar, quando nos dignamos dar-nos a esse luxo, torna-se muito primitivo; o corpo transforma-se num instrumento novo e maravilhoso; olhamos para plantas, pedras ou peixes com olhos diferentes; perguntamo-nos o que pretendem as pessoas realizar com as suas actividades frenéticas; sabemos que está a travar-se uma guerra, mas não fazemos a mínima ideia porquê nem percebemos porque motivo gostam as pessoas de se matar umas às outras; [...] A ausência de jornais, a ausência de notícias acerca do que os homens estão a fazer em diferentes partes do mundo para tornar a vida mais suportável ou insuportável é a maior das dádivas. Se pudéssemos pura e simplesmente eliminar jornais, estou certo de que isso constituiria um grande avanço. Os jornais engendram mentiras, ódio, ganância, inveja, desconfiança, medo, maldade. Nós não precisamos da verdade como ela nos é servida nos jornais diários. Precisamos de paz, solidão e ociosidade. Se pudéssemos fazer greve e, sinceramente, negar todo e qualquer interesse naquilo que o nosso vizinho está a fazer, poderíamos conseguir novas esperanças. Poderíamos aprender a passar sem telefones, rádios e jornais, sem máquinas de qualquer espécie, sem fábricas, sem minas, sem explosivos, sem navios de guerra, sem políticos, sem advogados, sem produtos enlatados nem engenhocas, até mesmo sem lâminas de barbear, ou celofane, ou cigarros, ou dinheiro. Isto é um sonho irreal, bem sei. As pessoas só fazem greve para obterem melhores condições de trabalho, melhores salários, melhores oportunidades de se tornarem alguma coisa diferente do que são. [...]

Henry Miller | O Colosso de Maroussi



24 Janeiro 2010

Dia a dia


Dia
a
dia
noite
a
noite
pedra
a
pedra
palha
a
palha
tronco
a
tronco
cuspo
a
cuspo
gesto
a
gesto
passo
a
passo
flor
a
flor
se faz um ninho
um caminho
um amor

Teresa Rita Lopes | Cicatriz

18 Janeiro 2010

A flor




"A flor máis grande do mundo" de Juan Pablo Etcheverry, 2006

11 Janeiro 2010

mudança de estado


Ilustração – James Jean


“Já na viagem de núpcias, quando esta mudança de estado começou a operar-se (e não é muito exacto dizer que começou, é uma mudança violenta e que não deixa respirar), me apercebi de que era muito difícil pensar nela, e totalmente impossível pensar no futuro, que é dos maiores prazeres concebíveis para qualquer pessoa, se não a salvação diária de todos: pensar vagamente, errar com o pensamento posto no que há-de vir ou pode vir, perguntar-se sem demasiada concretização nem interesse pelo que será de nós amanhã mesmo ou dentro de cinco anos, pelo que não prevemos. Já na viagem de núpcias era como se se tivesse perdido e não houvesse futuro abstracto, que é o que interessa porque o presente não pode ser pintado com outras cores ou assimilado. Essa mudança, assim, obriga a que nada continue como até então, e mais ainda se, como costuma acontecer, a mudança for precedida e anunciada por um esforço comum, cuja principal manifestação visível é a artificiosa preparação de uma casa comum, uma casa que não existia para um nem para outro, mas que deve ser inaugurada pelos dois, artificiosamente. Nesse mesmo costume ou prática, muito difundido pelo que eu sei, está a prova de que, na realidade, ao contraírem matrimónio, os dois contraentes estão a exigir-se mútua abolição ou aniquilamento, a abolição daquele que cada um era e de que cada um se enamorou ou talvez visse as vantagens, pois nem sempre há um enamoramento prévio, às vezes existe posteriormente e às vezes não se dá nem depois nem antes. Não pode dar-se. O aniquilamento de cada um, daquele que se conheceu, com quem se conviveu e se amou, arrasta consigo o desaparecimento das suas respectivas casas, ou nele fica simbolizado. De tal maneira que duas pessoas que tinham o costume de ser cada uma por sua conta e de estar cada uma num lugar, e de acordarem sozinhas, encontram-se, de repente, artificialmente unidas no seu sono e no seu despertar, e nos seus passos pelas ruas semivazias numa direcção única ou a subirem juntos no elevador, não mais com um de visita e o outro como anfitrião, não mais com um a ir buscar o outro ou este a descer para ir ao encontro daquele, que a espera no carro ou num táxi, e sim ambos sem escolha, com umas divisões e um elevador e uma porta de entrada que não pertenciam a nenhum deles e agora são dos dois, com uma almofada comum pela qual se verão obrigados a lutar em sonhos e da qual, tal como o doente, acabarão também por ver o mundo.”

Coração Tão Branco | Javier Marías



27 Dezembro 2009

apenas se compreende uma fracção do significado




“Anderson Creek, Big Sur
17 de Maio de 1946


Querida Anaïs,

Sim, ao escrever aquele guião, soube enfim que não iria ser necessário enviá-lo, mas tive de o escrever antes que o conseguisse ver claramente. Quando te rendes, o problema deixa de existir. Se tentares resolvê-lo, ou conquistá-lo, só aumentarás a resistência. Agora, estou bastante certo de que, como disse lá, se me tornar realmente naquilo que quero ser, o fardo desaparecerá. O mais difícil de admitir, e conceber com todo o nosso ser, é que sozinhos não controlamos nada. Sermos capazes de nos colocarmos em sintonia, ou no mesmo ritmo, com as forças superiores, que são as que operam verdadeiramente, essa é a tarefa – e a solução, se pudermos falar de “soluções”. O sentimento de culpa é, como ambos concordamos, baseado no conhecimento real de não estarmos a entregar-nos completamente. Disse-o de uma maneira, tu de outra.
Uma coisa que não me preocupa, contudo, é o que as pessoas pensam, como interpretam mal as coisas. Nada há que se possa fazer quanto a isso. Foi muito interessante ler as tuas palavras sobre “apenas se compreende uma fracção do significado”. Mas aí acho que estás parcialmente correcta. O que me surpreende cada vez mais é o quanto as pessoas conseguem de facto compreender quando se abre o jogo completamente, quando nada se omite. [...]
E há mais – é imperativo deixar o outro afundar-se no desespero, ficar irremediavelmente perdido. Só então estará preparado para a palavra certa, só então se poderá servir da verdade. E, nessas circunstâncias, omitir é um crime. Mas embalá-lo é um crime ainda pior. E esse é o cerne do problema, esse ponto. O instinto humano de poupar o outro à agonia (que é a sua forma de redenção, em qualquer sentido da palavra) é um instinto falacioso. E aqui depara-se uma teia de tentações subtis, perversas, perniciosas. Este nível, a que chamamos humano, é regido pelo ego – muitas vezes disfarçado das formas mais incríveis. A tentação de sermos bons, de fazermos o bem, acaba por afligir-nos a todos, de uma forma ou de outra. É o último recurso do ego.
És a única pessoa que conheço que soube usar o silêncio de forma eficaz. Às vezes era devastador, mas não creio que tivesses consciência disso. A verdade é que as pessoas obtinham mais respostas (respostas eficazes) de ti do que alguma vez obtiveram de mim, com os meus gritos e espalhafato, ou com a minha docilidade e persuasão. Tu restituíste-lhes a sua dignidade. Agora, ter plena consciência de o estar a fazer é diferente. Nunca tive a certeza de que a tinhas. Tinha-la, de facto?
No entanto, sei que a agitação e alvoroço que gero, até à distância, vem de mim. Sei-o. [...]

Henry”



Cartas de Amor | Anaïs Nin & Henry Miller




Fotografia da Anaïs Nin obtida aqui
Fotografia do Henry Miller obtida aqui


22 Abril 2009

21 Abril 2009

quase não somos visíveis no grande rio do tempo


“Imagina que o tempo é como um rio, e que o estamos a sobrevoar num avião. Lá longe, em baixo, consegues avistar as cavernas dos caçadores de mamutes e as estepes onde se cultivaram os primeiros cereais. Aqueles pontos à distância são as pirâmides e a Torre de Babel. Naqueles baixios, os Judeus guardavam rebanhos. Este é o mar que os Fenícios cruzavam nos barcos à vela. Aquilo que parece uma estrela branca a brilhar ali ao fundo, rodeada pelo mar, é na verdade a Acrópole, o símbolo da arte grega. Ali, dos dois lados do mundo estão as grandes florestas sombrias para onde se retiravam os ascetas indianos para meditar e onde Buda teve a experiência da Iluminação. Agora começamos a ver a Grande Muralha da China e, ali ao fundo, as ruínas fumegantes de Cartago. No interior daqueles funis de pedra gigantes os Romanos assistiam ao espectáculo dos Cristãos a serem desfeitos por animais selvagens. Aquelas nuvens escuras do horizonte são as nuvens de tempestade das migrações e foi naquelas florestas, junto ao rio, que os primeiros monges converteram e educaram as tribos germânicas. Deixando aqueles desertos para trás, os Árabes partiram à conquista do mundo, e era aqui que Carlos Magno reinava. Nesta colina, ainda está de pé a fortaleza em que se decidiu finalmente a luta entre o papa e o imperador sobre quem devia ser senhor do mundo. Daqui vêem-se castelos da Idade da Cavalaria e, ainda mais perto, cidades com belas catedrais – ali fica Florença, e ali está a nova Igreja de São Pedro, a causa da ruptura de Lutero com a Igreja. A cidade do México está em chamas e a Armada Invencível está a naufragar nas costas de Inglaterra. Esta nuvem densa de fumo vem de aldeias incendiadas e de fogueiras em que se queimavam as pessoas durante a Guerra dos Trinta Anos. Aquele magnífico palácio no meio de um jardim enorme é o Palácio de Versalhes de Luís XIV. Ali estão os Turcos acampados às portas de Viena, e mais perto ainda estão os castelos simples de Frederico, o Grande, e de Maria Teresa. À distância, ouvem-se os gritos de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, vindos das ruas de Paris, e já se consegue ver Moscovo a arder, e a terra invernosa em que pereceram os soldados do grande exército do Último Conquistador. Ao aproximarmo-nos, conseguimos ver o fumo a sair das chaminés das fábricas e ouvimos o apito dos comboios. O Palácio de Verão de Pequim está em ruínas, e vêem-se navios de guerra a zarpar dos portos japoneses com a bandeira do sol nascente. Aqui, ainda se ouve o ribombar dos canhões da Guerra Mundial. O gás venenoso vagueia sobre a terra. Ali ao fundo, pela cúpula aberta de um observatório, um telescópio gigante dirige o olhar de um astrónomo para galáxias a uma distância inimaginável. Só que agora já só vemos nevoeiro por baixo de nós, e à nossa frente um nevoeiro denso e impenetrável. Só sabemos que o rio continua a correr. Segue sempre em frente, em direcção a um mar desconhecido.
Mas vamos descer até ao rio no nosso avião. De perto, consegue-se ver que é um rio a sério, com ondas como o mar. Está a soprar um vento forte e nas ondas formam-se pequenas cristas de espuma. Olha com atenção para os milhões de bolhas brilhantes que se elevam e depois desaparecem com cada onda. Umas atrás das outras, vêm à superfície novas bolhas e depois acabam por desaparecer com as ondas. Por um breve instante, são elevadas na crista da onda e depois afundam-se e nunca mais são vistas. Nós somos assim. Cada um de nós não é mais do que um pontinho reluzente, uma gotinha brilhante nas ondas do tempo que corre por baixo de nós em direcção a um futuro desconhecido e nebuloso. Quase não somos visíveis no grande rio do tempo. Há gotas novas que estão sempre a vir à superfície. Aquilo a que chamamos destino não é mais do que a nossa luta naquela grande imensidão de gotas entre a subida e a descida de uma onda. Mas devemos aproveitar esse momento. O esforço vale a pena.”

texto de E. H. GOMBRICH | UMA PEQUENA HISTÓRIA DO MUNDO


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