12 outubro 2012

Celina da Piedade - "Disse-te Adeus" (Em Casa 2012)


Disse-te adeus não me lembro
Em que dia de Setembro
Só sei que era madrugada
A rua estava deserta
E até a lua discreta
Fingiu que não deu por nada

Sorrimos à despedida
Como quem sabe que a vida
É nome que a morte tem
Nunca mais nos encontrámos
E nunca mais perguntámos
Um pelo outro a ninguém

Que memória ou que saudade
Contará toda a verdade
Do que não fomos capazes
Por saudade ou por memória
Eu só sei contar a história
Da falta que tu me fazes


29 agosto 2011

23 agosto 2011

Clarice Lispector





Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.

Clarice Lispector | Água viva, 1973


Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.

Clarice Lispector | A paixão segundo G. H., 1964






11 junho 2010

Não te analises (...)


Ilustração - Anatoly Fomenko


Não te analises.

Não procures no perfume das flores
a tempestade das raízes.

Nem queiras
desatar o fumo
do carvão das fogueiras.

Ama
com ossos de cinza
e cabelos de chama.

E deixa-te viver
Em rio a correr…


José Gomes Ferreira | Poeta Militante II, 1978

10 abril 2010

Amigo mêêêêê coração?




bilhete que acompanha o prato pintado com duas rosas pelo avô-pincel e que foi oferecido à iké num dia de aniversário

bem sei



[...] Saía de manhã à procura de novas angras e enseadas para nadar. Nunca havia uma alma nas imediações. [...] Ficava deitado ao sol horas a fio, sem fazer nada, sem pensar em nada. Manter a mente vazia é uma proeza, e para mais uma proeza muito saudável. Estar silencioso o dia inteiro, não ver nenhum jornal, não ouvir rádio, não escutar tagarelices, estar perfeita e completamente ocioso, perfeita e completamente indiferente ao destino do mundo é o mais excelente remédio que um homem pode administrar a si mesmo. A cultura livresca esvai-se gradualmente; os problemas fundem-se e dissolvem-se, os laços são suavemente cortados; pensar, quando nos dignamos dar-nos a esse luxo, torna-se muito primitivo; o corpo transforma-se num instrumento novo e maravilhoso; olhamos para plantas, pedras ou peixes com olhos diferentes; perguntamo-nos o que pretendem as pessoas realizar com as suas actividades frenéticas; sabemos que está a travar-se uma guerra, mas não fazemos a mínima ideia porquê nem percebemos porque motivo gostam as pessoas de se matar umas às outras; [...] A ausência de jornais, a ausência de notícias acerca do que os homens estão a fazer em diferentes partes do mundo para tornar a vida mais suportável ou insuportável é a maior das dádivas. Se pudéssemos pura e simplesmente eliminar jornais, estou certo de que isso constituiria um grande avanço. Os jornais engendram mentiras, ódio, ganância, inveja, desconfiança, medo, maldade. Nós não precisamos da verdade como ela nos é servida nos jornais diários. Precisamos de paz, solidão e ociosidade. Se pudéssemos fazer greve e, sinceramente, negar todo e qualquer interesse naquilo que o nosso vizinho está a fazer, poderíamos conseguir novas esperanças. Poderíamos aprender a passar sem telefones, rádios e jornais, sem máquinas de qualquer espécie, sem fábricas, sem minas, sem explosivos, sem navios de guerra, sem políticos, sem advogados, sem produtos enlatados nem engenhocas, até mesmo sem lâminas de barbear, ou celofane, ou cigarros, ou dinheiro. Isto é um sonho irreal, bem sei. As pessoas só fazem greve para obterem melhores condições de trabalho, melhores salários, melhores oportunidades de se tornarem alguma coisa diferente do que são. [...]

Henry Miller | O Colosso de Maroussi



24 janeiro 2010

Dia a dia


Dia
a
dia
noite
a
noite
pedra
a
pedra
palha
a
palha
tronco
a
tronco
cuspo
a
cuspo
gesto
a
gesto
passo
a
passo
flor
a
flor
se faz um ninho
um caminho
um amor

Teresa Rita Lopes | Cicatriz

18 janeiro 2010

A flor




"A flor máis grande do mundo" de Juan Pablo Etcheverry, 2006

11 janeiro 2010

mudança de estado


Ilustração – James Jean


“Já na viagem de núpcias, quando esta mudança de estado começou a operar-se (e não é muito exacto dizer que começou, é uma mudança violenta e que não deixa respirar), me apercebi de que era muito difícil pensar nela, e totalmente impossível pensar no futuro, que é dos maiores prazeres concebíveis para qualquer pessoa, se não a salvação diária de todos: pensar vagamente, errar com o pensamento posto no que há-de vir ou pode vir, perguntar-se sem demasiada concretização nem interesse pelo que será de nós amanhã mesmo ou dentro de cinco anos, pelo que não prevemos. Já na viagem de núpcias era como se se tivesse perdido e não houvesse futuro abstracto, que é o que interessa porque o presente não pode ser pintado com outras cores ou assimilado. Essa mudança, assim, obriga a que nada continue como até então, e mais ainda se, como costuma acontecer, a mudança for precedida e anunciada por um esforço comum, cuja principal manifestação visível é a artificiosa preparação de uma casa comum, uma casa que não existia para um nem para outro, mas que deve ser inaugurada pelos dois, artificiosamente. Nesse mesmo costume ou prática, muito difundido pelo que eu sei, está a prova de que, na realidade, ao contraírem matrimónio, os dois contraentes estão a exigir-se mútua abolição ou aniquilamento, a abolição daquele que cada um era e de que cada um se enamorou ou talvez visse as vantagens, pois nem sempre há um enamoramento prévio, às vezes existe posteriormente e às vezes não se dá nem depois nem antes. Não pode dar-se. O aniquilamento de cada um, daquele que se conheceu, com quem se conviveu e se amou, arrasta consigo o desaparecimento das suas respectivas casas, ou nele fica simbolizado. De tal maneira que duas pessoas que tinham o costume de ser cada uma por sua conta e de estar cada uma num lugar, e de acordarem sozinhas, encontram-se, de repente, artificialmente unidas no seu sono e no seu despertar, e nos seus passos pelas ruas semivazias numa direcção única ou a subirem juntos no elevador, não mais com um de visita e o outro como anfitrião, não mais com um a ir buscar o outro ou este a descer para ir ao encontro daquele, que a espera no carro ou num táxi, e sim ambos sem escolha, com umas divisões e um elevador e uma porta de entrada que não pertenciam a nenhum deles e agora são dos dois, com uma almofada comum pela qual se verão obrigados a lutar em sonhos e da qual, tal como o doente, acabarão também por ver o mundo.”

Coração Tão Branco | Javier Marías



27 dezembro 2009

apenas se compreende uma fracção do significado




“Anderson Creek, Big Sur
17 de Maio de 1946


Querida Anaïs,

Sim, ao escrever aquele guião, soube enfim que não iria ser necessário enviá-lo, mas tive de o escrever antes que o conseguisse ver claramente. Quando te rendes, o problema deixa de existir. Se tentares resolvê-lo, ou conquistá-lo, só aumentarás a resistência. Agora, estou bastante certo de que, como disse lá, se me tornar realmente naquilo que quero ser, o fardo desaparecerá. O mais difícil de admitir, e conceber com todo o nosso ser, é que sozinhos não controlamos nada. Sermos capazes de nos colocarmos em sintonia, ou no mesmo ritmo, com as forças superiores, que são as que operam verdadeiramente, essa é a tarefa – e a solução, se pudermos falar de “soluções”. O sentimento de culpa é, como ambos concordamos, baseado no conhecimento real de não estarmos a entregar-nos completamente. Disse-o de uma maneira, tu de outra.
Uma coisa que não me preocupa, contudo, é o que as pessoas pensam, como interpretam mal as coisas. Nada há que se possa fazer quanto a isso. Foi muito interessante ler as tuas palavras sobre “apenas se compreende uma fracção do significado”. Mas aí acho que estás parcialmente correcta. O que me surpreende cada vez mais é o quanto as pessoas conseguem de facto compreender quando se abre o jogo completamente, quando nada se omite. [...]
E há mais – é imperativo deixar o outro afundar-se no desespero, ficar irremediavelmente perdido. Só então estará preparado para a palavra certa, só então se poderá servir da verdade. E, nessas circunstâncias, omitir é um crime. Mas embalá-lo é um crime ainda pior. E esse é o cerne do problema, esse ponto. O instinto humano de poupar o outro à agonia (que é a sua forma de redenção, em qualquer sentido da palavra) é um instinto falacioso. E aqui depara-se uma teia de tentações subtis, perversas, perniciosas. Este nível, a que chamamos humano, é regido pelo ego – muitas vezes disfarçado das formas mais incríveis. A tentação de sermos bons, de fazermos o bem, acaba por afligir-nos a todos, de uma forma ou de outra. É o último recurso do ego.
És a única pessoa que conheço que soube usar o silêncio de forma eficaz. Às vezes era devastador, mas não creio que tivesses consciência disso. A verdade é que as pessoas obtinham mais respostas (respostas eficazes) de ti do que alguma vez obtiveram de mim, com os meus gritos e espalhafato, ou com a minha docilidade e persuasão. Tu restituíste-lhes a sua dignidade. Agora, ter plena consciência de o estar a fazer é diferente. Nunca tive a certeza de que a tinhas. Tinha-la, de facto?
No entanto, sei que a agitação e alvoroço que gero, até à distância, vem de mim. Sei-o. [...]

Henry”



Cartas de Amor | Anaïs Nin & Henry Miller




Fotografia da Anaïs Nin obtida aqui
Fotografia do Henry Miller obtida aqui


22 abril 2009

21 abril 2009

quase não somos visíveis no grande rio do tempo


“Imagina que o tempo é como um rio, e que o estamos a sobrevoar num avião. Lá longe, em baixo, consegues avistar as cavernas dos caçadores de mamutes e as estepes onde se cultivaram os primeiros cereais. Aqueles pontos à distância são as pirâmides e a Torre de Babel. Naqueles baixios, os Judeus guardavam rebanhos. Este é o mar que os Fenícios cruzavam nos barcos à vela. Aquilo que parece uma estrela branca a brilhar ali ao fundo, rodeada pelo mar, é na verdade a Acrópole, o símbolo da arte grega. Ali, dos dois lados do mundo estão as grandes florestas sombrias para onde se retiravam os ascetas indianos para meditar e onde Buda teve a experiência da Iluminação. Agora começamos a ver a Grande Muralha da China e, ali ao fundo, as ruínas fumegantes de Cartago. No interior daqueles funis de pedra gigantes os Romanos assistiam ao espectáculo dos Cristãos a serem desfeitos por animais selvagens. Aquelas nuvens escuras do horizonte são as nuvens de tempestade das migrações e foi naquelas florestas, junto ao rio, que os primeiros monges converteram e educaram as tribos germânicas. Deixando aqueles desertos para trás, os Árabes partiram à conquista do mundo, e era aqui que Carlos Magno reinava. Nesta colina, ainda está de pé a fortaleza em que se decidiu finalmente a luta entre o papa e o imperador sobre quem devia ser senhor do mundo. Daqui vêem-se castelos da Idade da Cavalaria e, ainda mais perto, cidades com belas catedrais – ali fica Florença, e ali está a nova Igreja de São Pedro, a causa da ruptura de Lutero com a Igreja. A cidade do México está em chamas e a Armada Invencível está a naufragar nas costas de Inglaterra. Esta nuvem densa de fumo vem de aldeias incendiadas e de fogueiras em que se queimavam as pessoas durante a Guerra dos Trinta Anos. Aquele magnífico palácio no meio de um jardim enorme é o Palácio de Versalhes de Luís XIV. Ali estão os Turcos acampados às portas de Viena, e mais perto ainda estão os castelos simples de Frederico, o Grande, e de Maria Teresa. À distância, ouvem-se os gritos de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, vindos das ruas de Paris, e já se consegue ver Moscovo a arder, e a terra invernosa em que pereceram os soldados do grande exército do Último Conquistador. Ao aproximarmo-nos, conseguimos ver o fumo a sair das chaminés das fábricas e ouvimos o apito dos comboios. O Palácio de Verão de Pequim está em ruínas, e vêem-se navios de guerra a zarpar dos portos japoneses com a bandeira do sol nascente. Aqui, ainda se ouve o ribombar dos canhões da Guerra Mundial. O gás venenoso vagueia sobre a terra. Ali ao fundo, pela cúpula aberta de um observatório, um telescópio gigante dirige o olhar de um astrónomo para galáxias a uma distância inimaginável. Só que agora já só vemos nevoeiro por baixo de nós, e à nossa frente um nevoeiro denso e impenetrável. Só sabemos que o rio continua a correr. Segue sempre em frente, em direcção a um mar desconhecido.
Mas vamos descer até ao rio no nosso avião. De perto, consegue-se ver que é um rio a sério, com ondas como o mar. Está a soprar um vento forte e nas ondas formam-se pequenas cristas de espuma. Olha com atenção para os milhões de bolhas brilhantes que se elevam e depois desaparecem com cada onda. Umas atrás das outras, vêm à superfície novas bolhas e depois acabam por desaparecer com as ondas. Por um breve instante, são elevadas na crista da onda e depois afundam-se e nunca mais são vistas. Nós somos assim. Cada um de nós não é mais do que um pontinho reluzente, uma gotinha brilhante nas ondas do tempo que corre por baixo de nós em direcção a um futuro desconhecido e nebuloso. Quase não somos visíveis no grande rio do tempo. Há gotas novas que estão sempre a vir à superfície. Aquilo a que chamamos destino não é mais do que a nossa luta naquela grande imensidão de gotas entre a subida e a descida de uma onda. Mas devemos aproveitar esse momento. O esforço vale a pena.”

texto de E. H. GOMBRICH | UMA PEQUENA HISTÓRIA DO MUNDO


16 abril 2009

Ó pra ele...



foto: iké | 4 de Abril de 2009

14 abril 2009

13 abril 2009

Alentejo


foto: iké | Abril de 2009

A luz que te ilumina,
Terra da cor dos olhos de quem olha!
A paz que se adivinha
Na tua solidão
Que nenhuma mesquinha
Condição
Pode compreender e povoar!
O mistério da tua imensidão
Onde o tempo caminha
Sem chegar...


Miguel Torga, 1974

21 setembro 2008

a cidade


foto: iké | Agosto de 2008

A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.

Ary dos Santos

26 maio 2008

Poesia Matemática



Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a, do ápice à base,
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo rectangular, seios esferóides.
Fez da sua uma vida
paralela à dela.
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?" indagou ele
em ânsia radical
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que, em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
rectas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianas
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar,
constituir um lar,
mais do que um lar,
uma perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissectriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
frequentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era a fracção,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo o que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.

Millôr Fernandes

Texto tirado daqui

28 março 2008

MACACOS DACTILÓGRAFOS


foto: autor desconhecido


“Imagina o leitor o que fará um macaco ao teclado de um computador? Parece uma ideia ociosa, mas em 1909 um dos grandes matemáticos de sempre, o francês Émile Borel (1871-1956), imaginou um macaco que escrevesse letras ao acaso. Mostrou que, dando-lhe tempo ilimitado, o macaco acabaria por escrever uma das peças de Shakespeare. Borel não falou de um computador, é claro, mas de uma máquina de escrever. E o seu argumento ficou conhecido como a parábola dos macacos dactilógrafos. Carregando teclas de forma puramente aleatória, não só é possível aparecer qualquer sequência de letras como ainda, se o tempo for infinito, qualquer sequência de letras irá necessariamente aparecer.
Matematicamente, este resultado é uma ilustração do chamado lema de Borel-Cantelli. Mas o assunto tinha começado a ser discutido muito antes. Nos tempos de César, o estadista e filósofo Cícero (106-43 a. C.) dissera que uma obra de literatura não pode ser criada atirando letras para o chão. Matematicamente estava errado, como se vê. Mas em termos práticos não disse nenhum disparate. A probabilidade de um macaco que escreve letras ao acaso, independentemente umas das outras, escrever de seguida um simples verso de Os Lusíadas é inferior à de sair cinco vezes seguidas o jackpot a um apostador no Euromilhões.
O mais divertido é que na Universidade de Plymouth, em Inglaterra, houve quem fizesse a experiência e desse uma computador a um grupo de símios. Sabe o que fizeram os macacos no teclado do computador? Defecaram e urinaram. Destruíram a máquina antes de formar uma única palavra.”


texto de NUNO CRATO | PASSEIO ALEATÓRIO PELA CIÊNCIA DO DIA-A-DIA



24 março 2008

preta





fotos: iké | Março de 2008

23 março 2008

Minha herança: uma flor


foto: iké | Março de 2008

Achei você no meu jardim entristecido
Coração partido
Bichinho arredio
Peguei você pra mim
Como a um bandido
Cheio de vícios
E fiz assim, fiz assim:

Reguei com tanta paciência
Podei as dores, as mágoas, doenças
Que nem as folhas secas vão embora
Eu trabalhei

Fiz tudo, todo meu destino
Eu dividi, ensinei de pouquinho
Gostar de si, ter esperança e persistência sempre

A minha herança pra você é uma flor
Um sino, uma canção, um sonho
Nenhuma arma ou uma pedra eu deixarei
A minha herança pra você é o amor
Capaz de fazê-lo tranqüilo, pleno
Reconhecendo no mundo o que há em si

E hoje nos lembramos sem nenhuma tristeza
Dos foras que a vida nos deu
Ela com certeza
Estava juntando você e eu

Achei você no meu jardim

Vanessa da Mata | Sim