Disse-te adeus não me lembro
Em que dia de Setembro
Só sei que era madrugada
A rua estava deserta
E até a lua discreta
Fingiu que não deu por nada
Sorrimos à despedida
Como quem sabe que a vida
É nome que a morte tem
Nunca mais nos encontrámos
E nunca mais perguntámos
Um pelo outro a ninguém
Que memória ou que saudade
Contará toda a verdade
Do que não fomos capazes
Por saudade ou por memória
Eu só sei contar a história
Da falta que tu me fazes
12 outubro 2012
Celina da Piedade - "Disse-te Adeus" (Em Casa 2012)
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29 agosto 2011
23 agosto 2011
Clarice Lispector
Clarice Lispector | A paixão segundo G. H., 1964
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11 junho 2010
Não te analises (...)
Não te analises.
Não procures no perfume das flores
a tempestade das raízes.
Nem queiras
desatar o fumo
do carvão das fogueiras.
Ama
com ossos de cinza
e cabelos de chama.
E deixa-te viver
Em rio a correr…
José Gomes Ferreira | Poeta Militante II, 1978
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10 abril 2010
Amigo mêêêêê coração?

bilhete que acompanha o prato pintado com duas rosas pelo avô-pincel e que foi oferecido à iké num dia de aniversário
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bem sei

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24 janeiro 2010
Dia a dia
Dia
a
dia
noite
a
noite
pedra
a
pedra
palha
a
palha
tronco
a
tronco
cuspo
a
cuspo
gesto
a
gesto
passo
a
passo
flor
a
flor
se faz um ninho
um caminho
um amor
Teresa Rita Lopes | Cicatriz
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18 janeiro 2010
A flor
"A flor máis grande do mundo" de Juan Pablo Etcheverry, 2006
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11 janeiro 2010
mudança de estado
Coração Tão Branco | Javier Marías

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27 dezembro 2009
apenas se compreende uma fracção do significado
17 de Maio de 1946
Querida Anaïs,
Sim, ao escrever aquele guião, soube enfim que não iria ser necessário enviá-lo, mas tive de o escrever antes que o conseguisse ver claramente. Quando te rendes, o problema deixa de existir. Se tentares resolvê-lo, ou conquistá-lo, só aumentarás a resistência. Agora, estou bastante certo de que, como disse lá, se me tornar realmente naquilo que quero ser, o fardo desaparecerá. O mais difícil de admitir, e conceber com todo o nosso ser, é que sozinhos não controlamos nada. Sermos capazes de nos colocarmos em sintonia, ou no mesmo ritmo, com as forças superiores, que são as que operam verdadeiramente, essa é a tarefa – e a solução, se pudermos falar de “soluções”. O sentimento de culpa é, como ambos concordamos, baseado no conhecimento real de não estarmos a entregar-nos completamente. Disse-o de uma maneira, tu de outra.
Uma coisa que não me preocupa, contudo, é o que as pessoas pensam, como interpretam mal as coisas. Nada há que se possa fazer quanto a isso. Foi muito interessante ler as tuas palavras sobre “apenas se compreende uma fracção do significado”. Mas aí acho que estás parcialmente correcta. O que me surpreende cada vez mais é o quanto as pessoas conseguem de facto compreender quando se abre o jogo completamente, quando nada se omite. [...]
E há mais – é imperativo deixar o outro afundar-se no desespero, ficar irremediavelmente perdido. Só então estará preparado para a palavra certa, só então se poderá servir da verdade. E, nessas circunstâncias, omitir é um crime. Mas embalá-lo é um crime ainda pior. E esse é o cerne do problema, esse ponto. O instinto humano de poupar o outro à agonia (que é a sua forma de redenção, em qualquer sentido da palavra) é um instinto falacioso. E aqui depara-se uma teia de tentações subtis, perversas, perniciosas. Este nível, a que chamamos humano, é regido pelo ego – muitas vezes disfarçado das formas mais incríveis. A tentação de sermos bons, de fazermos o bem, acaba por afligir-nos a todos, de uma forma ou de outra. É o último recurso do ego.
És a única pessoa que conheço que soube usar o silêncio de forma eficaz. Às vezes era devastador, mas não creio que tivesses consciência disso. A verdade é que as pessoas obtinham mais respostas (respostas eficazes) de ti do que alguma vez obtiveram de mim, com os meus gritos e espalhafato, ou com a minha docilidade e persuasão. Tu restituíste-lhes a sua dignidade. Agora, ter plena consciência de o estar a fazer é diferente. Nunca tive a certeza de que a tinhas. Tinha-la, de facto?
No entanto, sei que a agitação e alvoroço que gero, até à distância, vem de mim. Sei-o. [...]

Cartas de Amor | Anaïs Nin & Henry Miller

Fotografia da Anaïs Nin obtida aqui
Fotografia do Henry Miller obtida aqui
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22 abril 2009
21 abril 2009
quase não somos visíveis no grande rio do tempo
Mas vamos descer até ao rio no nosso avião. De perto, consegue-se ver que é um rio a sério, com ondas como o mar. Está a soprar um vento forte e nas ondas formam-se pequenas cristas de espuma. Olha com atenção para os milhões de bolhas brilhantes que se elevam e depois desaparecem com cada onda. Umas atrás das outras, vêm à superfície novas bolhas e depois acabam por desaparecer com as ondas. Por um breve instante, são elevadas na crista da onda e depois afundam-se e nunca mais são vistas. Nós somos assim. Cada um de nós não é mais do que um pontinho reluzente, uma gotinha brilhante nas ondas do tempo que corre por baixo de nós em direcção a um futuro desconhecido e nebuloso. Quase não somos visíveis no grande rio do tempo. Há gotas novas que estão sempre a vir à superfície. Aquilo a que chamamos destino não é mais do que a nossa luta naquela grande imensidão de gotas entre a subida e a descida de uma onda. Mas devemos aproveitar esse momento. O esforço vale a pena.”
texto de E. H. GOMBRICH | UMA PEQUENA HISTÓRIA DO MUNDO

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16 abril 2009
14 abril 2009
13 abril 2009
Alentejo
A luz que te ilumina,
Terra da cor dos olhos de quem olha!
A paz que se adivinha
Na tua solidão
Que nenhuma mesquinha
Condição
Pode compreender e povoar!
O mistério da tua imensidão
Onde o tempo caminha
Sem chegar...
Miguel Torga, 1974
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21 setembro 2008
a cidade
A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.
A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.
A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.
A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.
Ary dos Santos
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26 maio 2008
Poesia Matemática
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a, do ápice à base,
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo rectangular, seios esferóides.
Fez da sua uma vida
paralela à dela.
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?" indagou ele
em ânsia radical
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que, em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
rectas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianas
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar,
constituir um lar,
mais do que um lar,
uma perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissectriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
frequentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era a fracção,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo o que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.
Millôr Fernandes
Texto tirado daqui
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28 março 2008
MACACOS DACTILÓGRAFOS
Matematicamente, este resultado é uma ilustração do chamado lema de Borel-Cantelli. Mas o assunto tinha começado a ser discutido muito antes. Nos tempos de César, o estadista e filósofo Cícero (106-43 a. C.) dissera que uma obra de literatura não pode ser criada atirando letras para o chão. Matematicamente estava errado, como se vê. Mas em termos práticos não disse nenhum disparate. A probabilidade de um macaco que escreve letras ao acaso, independentemente umas das outras, escrever de seguida um simples verso de Os Lusíadas é inferior à de sair cinco vezes seguidas o jackpot a um apostador no Euromilhões.
O mais divertido é que na Universidade de Plymouth, em Inglaterra, houve quem fizesse a experiência e desse uma computador a um grupo de símios. Sabe o que fizeram os macacos no teclado do computador? Defecaram e urinaram. Destruíram a máquina antes de formar uma única palavra.”
texto de NUNO CRATO | PASSEIO ALEATÓRIO PELA CIÊNCIA DO DIA-A-DIA

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24 março 2008
23 março 2008
Minha herança: uma flor
Achei você no meu jardim entristecido
Coração partido
Bichinho arredio
Peguei você pra mim
Como a um bandido
Cheio de vícios
E fiz assim, fiz assim:
Reguei com tanta paciência
Podei as dores, as mágoas, doenças
Que nem as folhas secas vão embora
Eu trabalhei
Fiz tudo, todo meu destino
Eu dividi, ensinei de pouquinho
Gostar de si, ter esperança e persistência sempre
A minha herança pra você é uma flor
Um sino, uma canção, um sonho
Nenhuma arma ou uma pedra eu deixarei
A minha herança pra você é o amor
Capaz de fazê-lo tranqüilo, pleno
Reconhecendo no mundo o que há em si
E hoje nos lembramos sem nenhuma tristeza
Dos foras que a vida nos deu
Ela com certeza
Estava juntando você e eu
Achei você no meu jardim
Vanessa da Mata | Sim
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